Histórias da Música Popular Brasileira
“Isto é Bom”: nos primeiros sulcos do disco brasileiro
Imagine o Rio de Janeiro em 1902. Não havia rádio, televisão ou qualquer das facilidades com que hoje ouvimos uma canção. A música acontecia ao vivo — nos teatros, nas festas, nos salões e nas ruas — e desaparecia no instante seguinte, restando na memória de quem a ouvira.
Foi nesse mundo que uma novidade extraordinária começou a mudar a história da música brasileira: o disco.
Naquele ano, a Casa Edison, fundada por Frederico Figner no Rio de Janeiro, lançou pelo selo Zon-O-Phone o disco nº 10.001. Nele estava “Isto é Bom”, um lundu de Xisto Bahia, interpretado por Bahiano, nome artístico de Manuel Pedro dos Santos. O registro tornou-se um dos grandes marcos inaugurais da discografia brasileira.
Há uma circunstância especialmente bonita nessa história: Xisto Bahia não chegou a ouvir o disco. Nascido em 1841, ele morreu em 1894, oito anos antes do lançamento. Sua música, porém, sobreviveu ao compositor e encontrou naquela nova invenção uma maneira de atravessar o tempo.
E que música era aquela?
Um lundu — gênero de profundas raízes afro-brasileiras, associado à dança, ao humor, à malícia e à vida popular. “Isto é Bom” pertence justamente a esse universo brejeiro que ajudaria a formar a música urbana brasileira. A ficha preservada pela Discografia Brasileira identifica o registro como lundu, acompanhado ao piano.
Ouvir hoje aquela gravação, com todas as limitações técnicas de 1902, é mais do que ouvir uma velha canção. É aproximar o ouvido de um Brasil que já não existe.
A partir dali, as vozes não precisariam mais desaparecer quando o cantor terminasse de cantar. A música poderia ser guardada, repetida, levada para outras casas — e, mais de um século depois, chegar até nós.
Talvez seja esse o verdadeiro encanto de “Isto é Bom”: não foi apenas uma música que ficou registrada. Foi um pedaço do Brasil que aprendeu a permanecer.


Bahiano (Manuel Pedro dos Santos), intérprete de “Isto é Bom”. Foto: autor desconhecido. Domínio público.